Os desafios dos primeiros anos do SAP no Brasil
Um dos fundadores da Homine, o CTO Alfredo Menin, foi também um dos personagens na história da chegada do ERP SAP ao Brasil. Neste artigo, ele relembra os desafios enfrentados no início da década de 90 para trazer o software para o país, adequá-lo à legislação brasileira e disseminá-lo entre as empresas nacionais. Confira.
Por Alfredo Menin, Co-founder e CTO da Homine

Quando se vê hoje a capilaridade do SAP no Brasil – praticamente “uma religião” seguida por grande parte das empresas nacionais –, ninguém imagina os desafios enfrentados lá no início, na década de 90, para que esse software viesse para o país e depois se disseminasse entre as empresas nacionais. Hoje, sempre que vou a eventos da SAP, invariavelmente lotados, me ponho a recordar sobre aquela época.
O primeiro obstáculo foi simplesmente trazer o programa para o Brasil. Eu trabalhava como consultor de TI na Origin – empresa fundada a partir de um processo de outsourcing realizado pela Phillips no Brasil. Já tínhamos ouvido falar desse software alemão, o SAP, que realizava a gestão operacional, logística e de finanças das empresas.
O presidente da Origin à época designou a célula de Indústria e Comércio da empresa para ir atrás do programa na Alemanha e trazê-lo para o país. Em 1992, uma equipe brasileira foi para lá e voltou com os CDs na mala, nos quais estavam gravados os dados da versão R3 do SAP. Para instalar o programa, tivemos de adquirir um computador com leitor de CDs – àquela época, uma novidade no país.
A barreira linguística foi o próximo desafio, pois o programa estava no idioma alemão. A célula de Indústria e Comércio da Origin, da qual eu fazia parte, trabalhou meses para traduzir as linhas do SAP para o inglês. Consultávamos o dicionário o tempo todo e, finalmente, concluímos a versão inicial do SAP R/3, em inglês, que foi para o mercado dos Estados Unidos. Daí foi mais fácil traduzirmos do inglês para o português.
Superado o problema da língua, encaramos o nosso maior desafio: entender como o programa funcionava e adaptá-lo à legislação fiscal e tributária do país – o trabalho de localização. Passamos oito meses “enfurnados” no escritório da Origin, em São Paulo, estudando a fundo o software – a programação, o banco de dados, os módulos de logística, de finanças, enfim, absolutamente tudo!
Uma executiva alemã da SAP veio para o Brasil e nos deu um treinamento sobre o funcionamento do programa. Porém, ela não conhecia todos os módulos. Por causa disso, consultores internacionais alemães também vieram ao Brasil e ministraram cursos sobre os que eram, àquela época, os módulos básicos do SAP: SD-Vendas, MM-Estoque e Compras, PP-Produção, FI-Finanças e Contabilidade Legal, e CO-Controladoria.
Quando já estávamos mais familiarizados com o novo software, começamos a realizar as pré-vendas técnicas, visitando as empresas brasileiras para entender como elas calculavam impostos. Em paralelo, uma equipe da célula Indústria e Comércio, com expertise fiscal, foi constituída para elaborar, em inglês, um livro contendo as fórmulas de cálculos dos impostos brasileiros. Foi um processo de aprendizado intenso, que gerou o “book da localização”, com todas as regras fiscais e tributárias aplicáveis no Brasil. E em 1993-94, uma equipe da Origin foi designada para viajar à Alemanha com o livro debaixo do braço e trabalhou por mais de um ano dentro da SAP.
O resultado foi o SAP R/3, uma versão nova e específica para o Brasil – a denominada “localização brasileira”. Importante ressaltar que fomos o 1º país a ter uma versão do SAP adaptada à sua realidade fiscal e tributária na América Latina.
Enquanto a equipe estava na Alemanha adequando o sistema para atender à legislação brasileira, nós corríamos para treinar consultores em TI capazes de implantar o software nas empresas. Afinal, de que adiantaria ter a versão brasileira do SAP, devidamente “localizada”, se não houvesse quem a implementasse? Nascia então a NewHire Academy, academia para formação de consultores, com treinamentos SAP que duravam 30 dias, com aulas de manhã, à tarde e à noite! Chegamos a formar mais de 200 consultores nesse período. E quando a versão brasileira do programa chegou ao país, já havia mão-de-obra qualificada para implementá-la nas empresas.
O início das vendas foi tímido. As empresas alemãs com subsidiárias no Brasil foram as primeiras a implementar o SAP por aqui. Em 1996, foi criada a SAP do Brasil. O software foi se aprimorando ano após ano e houve um crescimento contínuo daí em diante, especialmente porque já era um programa pronto para o “bug do milênio” – a preocupação que todos tinham com possíveis falhas nos processos computacionais em decorrência da virada do milênio. A demanda por projetos de implementação do SAP era tão alta que, em dado momento, faltavam consultores de TI no Brasil.
Me sinto privilegiado por ter vivenciado o início da SAP no país e por ter aprendido tanto com todo esse processo – os idiomas, a parte técnica e de funcionamento do ERP, os treinamentos. Todo o sacrifício valeu a pena. Sem contar que é sempre bom fazer parte da história.


